terça-feira, 7 de junho de 2011

UMA SIMPLES COINCIDÊNCIA

               Ela se chamava Isabella. Uma mulher meiga e delicada, morena cor de jambo, tinha vinte e três anos, veio do norte fazia 4 anos e se adaptara bem na capital de São Paulo. Todos que não a conhecia diriam que a moça era desnorteada e tonta, mas seus patrões se acostumaram com a inocência da empregada em menos de um mês de trabalho. Seus patrões era o senhor Rick e a senhora Malvina, ambos aposentados e de vida bem estável. Isabella chamava atenção por sua inocência exagerada portada numa única ser humana.
               Os patrões nos primeiros dias tiveram que ter muita paciência com o jeito atrapalhado da moça. Certa vez o telefone tocou, e lá foi Isabella atender o aparelho, mas antes seu patrão a orientou. 
              - Se for o meu cunhado Jorge, diga assim: ele saiu. – falou ele, lembrando da primeira vez que ela atendeu o telefone. “o senhor Rick mandou dizer que não está.”
               Isabella fez sinal de ok com a mão e ia fazer do jeito que ele pediu pra não pisar na bola como a última vez.
                - Alô. – ela perguntou com sua voz tímida.
                - Oi, sou Jorge o irmão de Malvina. O Rick está em casa?
                - O senhor Rick saiu... – disse ela feliz por ver do outro lado o seu patrão fazendo sinal de que ela se saiu muito bem.
                - A que horas ele volta? – perguntou Jorge.
               - Espera vou perguntar pra ele.
               Naquela noite a senhora Malvina riu muito quando o marido contara a nova atrapalhada da empregada Isabella.
                Certo dia, o senhor Rick estava desesperado procurando um envelope que deixara dentro da gaveta do seu criado mudo, e perguntou a sua esposa.
                 - Eu não vi querido, mas o que tinha dentro do envelope? – indagou ela.
                 - Um cheque assinado, ia dar de entrada na xácara que ia comprá-la amanha do seu Nelson! Meu Deus será que Isabella?...
                 - Por favor, nem diga isso! Ela não seria capaz querido, acho quem nem sabe o que uma folha de cheque! Vamos procurar direito, quem sabe você não caçou direito. – disse a esposa.
               Eles caçaram e nada. Foram dormir pra amanhã cedo perguntar pra empregada Isabella se ela não viu o envelope na gaveta do criado mudo.
E no outro dia de manhã cedo, os dois já pularam da cama e esperava por Isabella. Mas ela não compareceu, e eles entraram em desespero e não restavam duvidas. Isabella era suspeita número um!
      O senhor Rick decidiu ir até a casa da empregada. Uma simples casinha onde ela pagara aluguel, mas não tinha ninguém lá. “ou ela ta fingindo que não está, porque sabe que eu desconfio dela!” – imagina seu Rick.
     Quando o senhor Rick estava voltando pra casa, viu saindo uma bela mulher esguia do banco, bem vestida, parecendo uma modelo desfilando pela calçada. Mas ao olhar bem percebeu que era a empregada Isabella. Mal acreditou a primeira vista, mas enfurecido correu até ela, agarrou-a pelo pulso e a puxou.
                - Peguei você sua descarada! – gritou ele. – O que você tem dentro dessa bolsa sua ladra?!
     A moça tentava se soltar dele e gritava por socorro, muitas pessoas que passavam pararam e observavam. O senhor Rick tirou a bolsa dela e abriu jogando todas as coisas dela no chão. Havia maquilagem e muito dinheiro.
      Um guarda do banco foi até eles pra saber o que estava acontecendo.
                - Essa sem vergonha trabalha em casa como empregada e roubou meu cheque assinado e veio ao banco sacar esse dinheiro que o senhor vê!
                - Esse homem é louco, eu não o conheço! Nem sei o que ele fala! – dizia a bela mulher que envergonhada se abaixava pra recolher seus pertences do chão e ela chorava.
                - Ela está se disfarçando! Sempre pareceu uma tonta e ingênua, mas tontos e ingênuos fomos eu e minha esposa por confiar nessa vigária! – disse ele com decepção.                        
                 Naquele tumulto em torno deles veio pedindo licença uma senhora acompanhada por uma mulher com sacolas de compras na mão. Era Malvina.
                - Rick! – disse ela surpresa ao ver o marido em pé, e uma moça no chão de costas.
                - Querida, veja! Isabella é uma farsante, ela roubou o cheque e veio ao banco e... – ele parou de falar quando de trás da sua esposa apareceu nada menos que a própria empregada, Isabella, toda simples, com seu vestido habitual de trabalho.
                 A moça que estava no chão foi se levantando e olhou pra trás, se deparando frente a frente com sua cópia. A senhora Malvina gritou vendo a outra idêntica fisicamente com sua empregada.
                 No final foi tudo resolvido. Malvina explicou que pediu a empregada ontem que antes passasse no supermercado e comprasse alguns legumes e trouxe-se pra casa, mas esquecera disso, e o envelope com o cheque estava mesmo com Isabella, pois o senhor Rick lhe dera sua camisa pra que fosse lavada e passada por Isabella, mas ela levou pra sua casa pra lavar e passar, e acabou achando o envelope no bolso da camisa dele, e ia devolver quando chegasse a casa deles.                
                   Isabella descobriu admirada que tinha uma irmã gêmea, mas nunca soube disso. Nem tanto sua irmã Camila, que fora adotada por uma família e era modelo. O senhor Rick pediu perdão as duas moças por julgar tão mal e Camila aceitou seu pedido de perdão, e o dinheiro do cheque o senhor Rick comprou a xácara e deu de presente a sua antiga casa, uma grande casa pra Isabella, e ela agradecida pediu que sua irmã gêmea fosse morar com ela em sua nova casa, pois teriam que se conhecer melhor e descobrir juntas novas informações sobre o paradeiro de sua família biológica.                   
           Uma versão do conto, Ingênua até certo ponto, do livro Ideias e Vivências, da escritora M.B.L. Della Torre.


(Clayton de Jesus Camargo - membro da SENO).

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